“O TERAPEUTA DA FALA TAMBÉM TRABALHA COM RECÉM-NASCIDOS?”

É pouco comum ouvir falar da intervenção do Terapeuta da Fala junto dos recém-nascidos. O papel deste profissional é comummente associado à reabilitação de problemas que tenham a ver com a fala, o que é errado.

Como se sabe, o Terapeuta da Fala é responsável pelas áreas da comunicação, linguagem, fala, deglutição, respiração, motricidade orofacial e voz. É nas áreas da respiração, deglutição, motricidade orofacial e comunicação que este profissional se destaca junto dos recém-nascidos e dos seus cuidadores.

O bebé nasce, por norma, preparado anatomicamente para se alimentar de forma eficaz: a sua face é pequena, o queixo retraído, o nariz “arrebitado” com narinas largas e bochechas com sucking pads (género de “almofadas” que têm papel fundamental na criação de pressão negativa na cavidade oral, ajudando na sucção), o espaço intraoral é restrito o que limita os movimentos da língua (predominantemente horizontais) e não há dissociação dos movimentos da mandíbula e da língua, facilitando a amamentação. Para além destas características anatómicas, o bebe nasce ainda dotado de reflexos que lhe permitem uma amamentação segura e eficaz, nomeadamente:

  1. Nos primeiros dois meses de vida, quando é feita uma estimulação em redor da boca do bebé pelo mamilo/tetina/dedo, este roda a cabeça em busca do mesmo (reflexo de procura);
  2. Em seguida, os lábios do bebé fecham-se em torno do mamilo, sem que haja escape de leite; os bordos da língua devem tocar no palato e a língua deve fazer movimentos horizontais ântero-posteriores (trás para a frente), criando uma pressão negativa dentro da boca do bebé, que faz com que haja extração do leite/ líquido (reflexo de sucção);
  3. Com a passagem do leite dá-se o reflexo de deglutição: o osso hióde eleva e as paredes posteriores e laterais da faringe contraem, movendo o leite em direção ao esófago;
  4. Para que não haja passagem de leite para as vias aéreas, a laringe e o osso hioide elevam, os músculos da laringe e as cordas vocais contraem e a epiglote desce. Neste momento há uma pausa respiratória por um curto período de tempo. Caso o bebé se engasgue com o alimento, o reflexo de vómito é ativado para que não haja passagem de alimento para as vias aéreas.

É necessário que o padrão de sucção/ deglutição/ respiração esteja bem afinado para que a alimentação do bebé seja segura e eficaz. Este padrão é adquirido entre as 32 e 34 semanas de gestação, o que faz com que a criança ao nascer já seja capaz de se alimentar eficazmente.

Sabe-se que as primeiras mamadas são fundamentais para o sucesso da amamentação e para a alimentação eficaz do recém-nascido. É necessário ter tempo e observar como o bebé suga nos primeiros dias de vida, de forma a obter informações acerca do padrão sucção/deglutição/respiração, tendo em conta que é uma tarefa extremamente exigente para o bebé nesta altura.

 

O papel do Terapeuta da Fala junto do recém-nascido

Caso exista algum tipo de barreira que limite o bebé de se alimentar através da mama ou do biberão, o Terapeuta da Fala é o profissional privilegiado e habilitado para trabalhar as funções em causa e ajudar no combate das dificuldades apresentadas pelo recém-nascido e cuidadores, através de uma intervenção direta ou indireta com estratégias facilitadoras especificas. Ou seja, um dos objetivos da nossa intervenção é adequar o padrão dos músculos envolvidos na sucção, deglutição e respiração dos bebés para a amamentação e para, futuramente, o bom desenvolvimento da fala.

Embora não seja muito comum e falado em Portugal, o Terapeuta da Fala tem um papel importantíssimo, juntamente com uma equipa multidisplinar no que toca a dar resposta nas Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN), a crianças nascidas prematuramente oferecendo-lhes uma melhor qualidade de vida. Uma vez que a maturação dos tecidos não está completa, aquando do nascimento prematuro, é necessário proporcionar as condições favoráveis ao seu desenvolvimento.

Nestes casos, o Terapeuta da Fala tem um papel importante no que respeita a:

  • adequar o ambiente em que a criança está inserida – uma vez prematura, as vias auditivas são extremamente sensíveis aos sons, havendo a necessidade de diminuir estímulos externos – quer a par da amamentação ou na preparação para a mesma;
  • ajudar os cuidadores a interagir de forma adequada com o Recém-Nascido Pré-Termo (RNPT) – no que toca a saber atuar quando o bebé mostra sinais de stress, a compreender estados de sono/vigília e como atuar perante os mesmos;
  • auxiliar na introdução da alimentação oral: adequar o posicionamento aquando amamentação, dar estratégias para o fornecimento do alimento e para a estimulação orofacial.

 

Os sinais de alerta que devem ser observados

Existem alguns sinais de alerta que, se observados, requerem a avaliação de um Terapeuta da Fala e/ ou outros profissionais de saúde tais como:

  • Não apresentar o reflexo de procura quando estimulado com a mama, tetina ou o dedo;
  • Realizar uma sucção ineficaz (sem ritmo e/ou fraca), não conseguindo extrair o leite;
  • Apresentar ciclos curtos e pausas longas durante a amamentação;
  • Chorar, irritar-se ou mostrar sinais de stress (respiração ofegante, mudar de cor rapidamente, abrir as narinas de forma exagerada) durante a amamentação;
  • Ouvirem-se ruídos durante ou após engolir;
  • Engasgar-se durante a amamentação;
  • Apresentar sinais de extremo cansaço durante a amamentação;
  • Verificar-se perda de peso.