CHUPETA: USAR OU NÃO?

O uso da chupeta é desde há muito um motivo de discórdia entre os pais e os profissionais de saúde. Se por um lado é dito aos pais que o uso da chupeta é prejudicial à criança, por outro é muito difícil deixar de lado este objeto que tanto acalma e entretém os seus bebés.

Consequências do uso da chupeta:

A chupeta influencia negativamente o crescimento e desenvolvimento das estruturas craniofaciais. A verdade é que na amamentação ao peito, o bebé realiza um movimento horizontal, que é essencial para o crescimento mandibular e o equilíbrio das estruturas faciais. Quando o bebé faz uso da chupeta, este movimento horizontal é substituído por movimentos verticais responsáveis por alterações nas estruturas da cavidade oral (boca):

  • palato/céu da boca estreito;
  • alterações na arcada dentária (mordida cruzada, mordida aberta, incisivos projetados para a frente, etc.);
  • lábio superior encurtado;
  • ausência de vedamento labial;
  • lábio inferior flácido e evertido;
  • pele do queixo enrugada;
  • língua pouco tonificada e mal posicionada;
  • bochechas hipotónicas;
  • mandíbula não desenvolve.

Estas alterações têm influencia direta nas funções estomatognáticas:

  • A mastigação perde sua característica normal bilateral e alternada, tendendo a vertical ou unilateral. Isto afeta diretamente as articulações temporomandibulares e o desenvolvimento das estruturas envolvidas. Para além disto, pode ainda desenvolver-se uma deglutição atípica;
  • Relativamente à fala, para haver uma correta produção dos sons da fala, é necessário que os órgãos fonoarticulatórios apresentem uma boa mobilidade e a mandibula esteja corretamente posicionada. Ora, se a força da língua, das bochechas e dos lábios se encontrar reduzida, consequentemente a mobilidade estará afetada. Isto, em conjunto com um mau posicionamento da mandibula, traduz-se em imprecisões articulatórias;
  • Com o uso contínuo da chupeta, a respiração também será afetada. Uma vez que a língua deixa de posicionar-se no local correto (curvada no céu da boca sem exercer força e com a ponta da língua a tocar na papila palatina), passando a manter uma posição mais inferior/descaída. Isto favorece, entre outras coisas, a abertura da boca e, por consequência, a respiração passa a ser efetuada por esta via, dando origem a um respirador oral.

Para além disto, todo o crescimento dos ossos da face é afetado, verificando-se muitas das vezes que o nariz assume uma forma estreita e o septo fica desviado, propiciando uma maior suscetibilidade a patologias do foro otorrinolaringológico (como rinites, bronquites ou sinusites).

Uma outra consequência importante do uso da chupeta prende-se com o desmame prematuro. O facto de o comportamento da língua perante a sucção do seio ser diferente da sua posição perante a chupeta, faz com que a criança deixe de ser capaz de fazer uma eficaz sucção na amamentação.

Hábitos orais nocivos:

Apesar de este artigo abordar apenas a utilização da chupeta, é importante referir que também outros hábitos orais nocivos de sucção não nutritiva acarretam prejuízos semelhantes aos já citados, tais como:

  • sucção digital (do dedo);
  • onicofagia (roer as unhas);
  • sucção da língua, lábios ou bochechas;
  • uso de biberão;
  • bruxismo (ranger os dentes);
  • sucção de outros objetos.

Chupeta: usar ou não?

Perante estes dados, coloca-se a questão: “Chupeta: usar ou não?”. Na verdade, esta é a uma questão a que nós Terapeutas da Fala temos alguma dificuldade em responder. Se por um lado há estudos que afirmam que não deve fazer-se uso da chupeta devido a todas as consequências acima descritas, por outro lado existem outros estudos que referem a importância do uso da chupeta. Para alguns autores, este objeto é um importante auxílio na redução do stress e da ansiedade dos bebés, sendo uma fonte de bem-estar e de prazer, ajudando-os a organizar e regular-se. Para além disso, encaram ainda a chupeta como um importante inibidor da realização de outro tipo de sucções (como de objetos ou dedos) e acreditam que se a sua retirada for efetuada por volta dos dois anos, os danos causados podem ser revertidos.

Independentemente disto, é importante que nos primeiros quinze dias de vida o bebé não tenha contacto com este objeto, pois uma vez que as estruturas da boca se comportam de forma diferente perante uma chupeta e o seio da mãe, pode causar alguma confusão ao bebé, podendo mesmo levá-lo a rejeitar a mama.

Caso se opte por fazer uso da chupeta, sugere-se o uso de chupetas ortodônticas, uma vez que conseguem ocupar um maior espaço boca, diminuindo a passagem de ar e promovendo a respiração pela via nasal.

Dicas para abandonar a chupeta:

Apesar de cada criança ser única e não haver uma fórmula mágica para deixar a chupeta, deixam-se aqui algumas dicas, tais como:

  • não oferecer a chupeta ao bebé nem dar-lha ao mínimo sinal de choro;
  • manter a chupeta fora do alcance e da vista da criança e não a deixar à disposição da criança (pendurada na roupa, por exemplo);
  • retirar a chupeta da boca da criança assim que ela adormecer;
  • fazer um furo na chupeta (crianças tendem a não gostar);
  • elogiar a criança quando não estiver a usar a chupeta,
  • restringir a chupeta a certos períodos do dia (deitar, momentos de doença, etc.);
  • aproveitar alturas como constipações para retirar a chupeta, pois a criança não consegue usá-la uma vez que necessita da boca para respirar;
  • se a criança usar biberão, não alargar a tetina: os furos das tetinas são feitos de forma a estimular a força de sucção e o padrão da pressão intraoral, de forma a estimular o desenvolvimento das estruturas orofaciais;
  • se o bebé faz sucção do dedo, tentar substituir pela chupeta ortodôntica;
  • se a criança estiver com o dedo na boca, atrair a sua atenção para atividades que mantenham as mãos ocupadas.